quarta-feira, 2 de abril de 2014

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Há pouco, por mero acaso, entrei numa igreja aqui do Chiado. Entrei, pura e simplesmente, porque não me lembrava como é que ela era por dentro. O sinal da passadeira estava verde, podia atravessar para o outro lado da rua sem dificuldades e perdas de tempo adicionais, sentia-me bem disposta porque foi a primeira vez em muitos dias que saí do trabalho com luz do dia. Não querendo conceder grande espaço ao meu lado místico, a verdade é que naquelas fracções de segundos que demorei a tomar a decisão de atravessar a estrada houve algo - mais do que a luz verde para os peões indicada no semáforo - que me disse para ir, como se fosse ajudar-me a sentir-me ainda melhor, num dia em que já me sentia bem. Mal entrei na igreja tudo pareceu-me familiar. Afinal já ali tinha estado uma dúzias de vezes. Estava quase a virar costas quando reparei que a celebração que estava a acontecer no altar não era a tradicional missa das sete da tarde-, tão tradicional em tantas igrejas dos arredores - mas sim um casamento. Lá ao fundo um casal na casa dos seus setenta e poucos casava-se, sob o olhar dos filhos e filhas, genros e noras, netos crescidos e pequenos, apercebi-me pouco depois ao observar aquele agrupado de pessoas bem compostas e comovidas sentadas nas primeiras filas. Um dos netos mais pequenos foi levar as alianças, num mini-fato, todo seguro na sua honrosa missão. Dei por mim no papel de vouyer, emocionada com o evento da vida de uns estranhos, pela ternura e afecto revelados no olhar e em toda a linguagem corporal daquele casal, em como acharam que fazia sentido dar aquele passo agora apesar de não o terem dado antes. O amor é mesmo bonito. Este tipo de amor dedicado, dependente, terno, quem sabe, eterno. 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

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Quando me sinto na merda e a querer fugir sei lá para onde eis que tenho um dia em que acordo a horas e sem dificuldades; não apanho trânsito para o meu destino apesar da greve do metro; ganho um julgamento; recebo, inesperadamente, um ramo enorme de flores que já cheiram a Primavera; e o meu namorado que não sabe cozinhar, tratou de tratar do jantar.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

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No Domingo acordei ao meio dia e ainda estava a  sair do quarto com aquele ar de quem está a voltar à realidade quando o meu namorado, sentado no sofá da sala,  grita-me "Bom dia, olha o Eusébio morreu". Não sei, é sempre esquisito quando morre uma personalidade pública daquelas que nos é estranhamente familiar  e o Eusébio era uma dessas, reconhecia a sua cara e nome desde que me lembro de existir como pessoa. Não conhecemos a pessoa em si, mas de alguma forma ficamos chocados com a notícia e não conseguimos deixar de falar nisso. Na rua, no café, o tema repetia-se na boca de benfiquistas, não benfiquistas, patriotas e nacionalistas, pessoal que está-se bem a lixar para clubes e para o país mas que mesmo assim não ficava indiferente à novidade. Na televisão, outras personalidades públicas falavam do génio da bola, recontavam-se os mesmos feitos em exibições memoráveis, repetiam-se os elogios às mesmas qualidades do homem. Ao fim de um tempo desliguei-me automaticamente de tanta informação, o assunto parecia estar esgotado para mim. Mas nesse dia, ao fim da tarde, fui ao Minipreço ao pé da minha casa e o funcionário da caixa aborda o senhor à minha frente "Então hoje está triste não é? Lembrei-me logo de si, da história que me contou com ele...". E o velhote ficou logo emocionado e lá contou de novo quando era um jovem militar em África e conheceu o Eusébio que com a selecção foi visitar o grupo onde estava destacado. E lá contou também de como o encontrou umas duas vezes, ao longo dos anos, e que teve a oportunidade de falar com ele sobre aquele dia em África e de como aquilo o tinha marcado. A mulher do velhote empacotava as compras com um ar seco e lá deve ter achado que aquilo tudo era pateta de mais porque perguntou-lhe: "E então, vale a pena isso? Não vais tu morrer também? E eu?". O senhor limpava os olhos e o nariz ao lenço de pano sacado do bolso perante o olhar do funcionário e do meu. E de repente passei a detestar todos aqueles cínicos de meia tigela que já se apareciam a manifestar contra o pesar colectivo do dia porque nesse pesar incluía-se o daquele homem e de sei lá mais quantos como ele. No fim o que ficou realmente  do Eusébio não são os golos, nem a história do tremoço e do marisco, mas sim a alegria, a esperança sabe-se lá em quê que ele transmitiu a gerações, como à daquele velhote, a gastar a juventude no calor africano, para depois regressar a um Portugal miserável à espera de dias melhores que culminaram nestes tão tristes que atravessamos, mas a quem aquela história, aquele encontro, enche o peito, a existência.

sábado, 4 de janeiro de 2014

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Ontem à noite fomos outra vez acordados por uma discussão. Desta vez um cinquentão bêbedo ficou ofendido porque estava a fazer xixi na rua e um outro tipo, que viu, chamou-o de "grande porco". Defendia-se o primeiro que estava na via pública, que pertencia a todos, e que o outro, assim, não tinha autoridade para o criticar. Dizia ele que "mijava e cagava onde quisesse", inclusive na "boca do outro" e "prontos, está calado oh filho da puta".Como fiquei convencida com tão boa argumentação, até estive vai não vai para mandar o saquito de dejectos proveniente da limpeza diária da caixa dos meus gatos para a rua, mas de forma a acertar-lhe em cima (e rezando, claro, para que a gravidade e o peso das mini bostas e aglomerados de areia urinada, rebentassem o plástico do saco em cheio naquela careca).

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Às festas juntou-se uma outra palavra começada com "f", que não, não é logo essa que vos vem a cabeça, seus porcalhões. Dos onze dias sem trabalhar, só me sobram hoje e amanhã, daí esta neura que me acompanha desde ontem à tarde quando todos os outros rejubilavam de alegria. Estou cansada do meu trabalho,  não só de carregar com o peso dos problemas dos outros, como ainda de ter lidar com má-criações que às vezes parecem que vêm de todo o lado, clientes, colegas, funcionários de repartições públicas. Subitamente, parece que tudo perdeu o juízo e a educação, ou então verifica-se um efeito colateral da austeridade, não estudado nem previsto pelos melhores economistas, que é que as pessoas sem dinheiro começam a ficar bem fodidas com a vida. Não creio mesmo que isto só aconteça comigo, acho que quem seja perspicaz e sensível também já se deva ter apercebido de uma espécie de agressividade latente que anda por aí à solta nas ruas, enclausurada dentro de cada transeunte, e também dá graças a Deus por não termos uma política de aquisição de armas igual à do Estados Unidos. Deixemos a neura global e passemos aos detalhes. Estou à passar um fase mais solitária, uma das minhas melhores amigas emigrou e faz-me falta, porque era exactamente com ela que partilhava as maiores e melhores opiniões. O meu restante grupo, continuo a adorá-los mas reparo, pela primeira vez em muito tempo, numa grande dissemelhança de interesses. Como quando no fim de ano comentei que ia começar  o ciclo do Bergman no Nimas e eles nem ligaram porque "não gostam de filmes antigos", nem de "coisas deprimentes" e puseram-se todos entusiasmados a falar do "Hunger Games". Sem preconceito nenhum, atenção, apenas gostava de ter alguém para falar do "Persona" como eles falam daquilo. Sinto-me sem grande escape de uma realidade chata e cinzenta, como o dia que se afigura hoje.

Olhem, bom ano novo.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

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A minha avó morreu ontem de manhã. Tinha um cancro a consumi-la há quase cinco anos, neste mês o estado agravou-se diariamente e no último fim-de-semana, quando fomos visitá-la pela última vez já não apresentava qualquer reacção. Por mais esperada que fosse aquela notícia foi impossível não recebê-la com choque. Por alguns minutos fiquei meio parva, fiz os telefonemas que tinha a fazer a chorar e a balbuciar mas depois compus-me, arranjei-me, sai para a rua no suposto estado de racionalidade - já se sabia, a qualquer momento, que aquilo ia  acontecer. Mais tarde chega o momento em que se encara o corpo e percebi definitivamente a diferença que havia entre o que vimos no último fim-de-semana e o que vimos agora. Faz-me confusão que exista pessoas que não acreditem num lado espiritual do ser, que parte ao mesmo tempo que o coração pára. Faz-me confusão porque vi tão claramente a diferença na pessoa vegetal do último fim-de-semana e no corpo que vi ontem e hoje. Visualmente a imagem não podia ser mais semelhante e mais diferente. Durante anos e anos vivia agoniada com a realidade dos velórios e funerais, mas as últimas perdas fizeram-me perceber aquela mentalidade mais antiga que diz que os nossos mortos são-nos queridos. É impossível ter impressão de um corpo que nos abraçou e protegeu. A minha avó era para se chamar Stella mas o funcionário público que a registou não percebeu a modernice e ficou Estela. Ficou com um nome antiquado que não tinha nada a ver com a mulher jovem que ela foi, era uma daquelas belezas dos anos 50 que andava de vestido rodado feito na modista e luvas a condizer com o chapéu. Era tão bonita que roubou o noivo a uma tia e casou-se ela com aquele que viria a ser o meu avô. Ela era uma pessoa extremamente complicada, tinha um feitio autoritário e caprichoso, agravado pela vida que nunca foi fácil. Morreram-lhe dois irmãos e a mãe, todos muitos novos. O marido, que foi o melhor e o mais querido dos avôs, era um boémio que não podia ver outra mulher bonita e ela sofreu anos a fio de ciúmes e inseguranças. Chegou a ter três empregos para que os filhos pudessem estudar o que quisessem e a nós, netos, tanto nos obrigava a ficar quietinhos na sala um dia inteiro porque tinha estado a encerar o chão do resto da casa, como era seriamente preocupada em ajudar-nos a completar a colecção dos cromos das raças dos cães que saía no Bollycao. Era uma mulher muito caprichosa - já o disse acima-, doida pelo controlo e pela organização mas era tão torcida que era impossível não nos deixarmos torcer pela graça. Era aparentemente muito séria, uma espécie de grumpy grandma mas depois, quando menos esperávamos, era hilariante. Uma vez, em que passou uma grande temporada depois de um internamento em casa dos meus pais, ganhou o hábito de ver com eles "A Guerra dos Tronos". Ninguém tinha dúvidas que ela não percebia metade do que se passava, mas estava sempre a perguntar quando é que aquilo dava, a querer acompanhar. Uma noite, antes do episódio começar e já com ela resfatelada no sofá, a minha mãe pergunta-lhe afinal porque é que ela gosta tanto de ver aquilo. Ao que ela, extremamente concentrada responde, "Olha, acho graça ao anão fodilhão". E esta história tão parva e ordinária resume aquilo que ela era e que vai deixar tantas saudades. Nem sempre sabíamos o que contar  vindo dela, mas sabíamos que ia ser muito bom.